carta sobre queloide

Querida Ana!

Você pediu para que eu comentasse alguma coisa sobre esse seu novo livro. Desculpe a demora em lhe responder, mas, como você sabe, final de ano é sempre um enrosco. Saiba que gostei muito e vejo que é como artista plástica que você compõe QUELOIDE – Poemas Cicatriciais, cujo encadeamento se dá não apenas pela sequência lógico-narrativa de seus versos, mas pela forma como as palavras foram dispostas nas páginas – como elementos quase que puramente gráficos –, que delineiam uma espécie de paisagem-cenário, a reforçar a significação daquilo que está sendo dito. Concorrem, também, para a construção do sentido o entremear dos planos de cor, enquanto tonalidades afetivas que variam ao longo do poema: o coração enamorado se manifesta na vibração calorosa do vermelho, a carência renitente ricocheteia, pra lá e pra cá, na platitude do branco e a dor do luto se afunda na lassidão do negro. Não é menos significativa, ainda, a inspiração musical, conforme nos indicam principalmente os versos com os quais você inicia e finaliza o poema, que você dividiu em quatro partes. Assim sendo, percebo que é como mote que a canção UM DIA, de Caetano Veloso, reverbera na epígrafe de QUELOIDE:

            cresce
pé de avenca

            vera avenca de caetano
            cresce pé de avenca
            leva junto todo pranto

Tanto nessa epígrafe como na letra da canção de Caetano, o que se tematiza é a ideia da esperança contida no verdejar da avenca (Adiantum capillus veneris), planta que Caetano e você tomam como emblema, imagino que pelo fato de sua delicada folhagem, também chamada de “cabelo-de-Vênus” (do latim, capillus veneris), resplandecer ainda mais bonita após um período de prostração hibernal ou, metaforicamente, após um período de melancolia. Nesse sentido, arrisco dizer que a avenca teria a capacidade de levar embora toda a tristeza contida nas lágrimas daquele que chora um amor perdido, pois, conforme nos indica o seu nome científico – do grego, “adiantos” significa literalmente “que não se molha” ­–, as gotas de chuva (como as lágrimas) deslizam sobre suas folhas sem molhá-las. Portanto, em UM DIA, é justamente essa esperança o que se canta:

            Pé de avenca na janela
            Brisa verde, verdejar
            Vê se alegra tudo agora
            Vê se para de chorar

Mas, ao dizer vera avenca de caetano, você faz ressoar também a expressão haver avencas, contida na letra de PELOS OLHOS. Nessa canção Caetano sintetiza, em seus belos versos, o que a ciência nos explica sobre o processo de reprodução da avenca, planta tipo feto (ou seja, que não produz sementes e flores): na superfície inferior das folhas da avenca, formam-se pontinhos escuros, chamados soros, que parecem verdadeiros “olhinhos”. O surgimento deles indica que a avenca está em época de reprodução. É dentro dos soros que são produzidos os inúmeros esporos que, depois de amadurecidos, fazem com que os tais “olhinhos amendoados” se abram e deles saiam esses esporos – amarelíssimos como a luz do Sol –, que são levados pelas brisas e se espalham pelo solo.

            O Deus que mora na proximidade do haver avencas
            Esse Deus das avencas é a luz
            Saindo pelos olhos
            De minha amiguinha

Todavia, no decorrer de QUELOIDE, essa esperança de vida luminosa vai se extinguindo e o que prevalece é uma visada melancólica, que se deixa transparecer inclusive naquele olhar tristonho e amendoado, a lembrar os de Nadja que aparecem verticalmente multiplicados numa colagem fotográfica, de 1928, no livro homônimo do surrealista André Breton, com a seguinte legenda: “Seus olhos de avenca”. E assim, creio que não seja por acaso que no penúltimo verso de QUELOIDE, surge uma outra alusão musical, ASSUM PRETO, em que se retoma a referência aos olhos, só que agora destituídos de toda luz. Esse pássaro da caatinga, cujo esplendoroso canto a todos encanta, também é chamado de Cupido justamente por causa da cegueira a que muitos deles foram acometidos, tal como aconteceu com o filho de Vênus, o deus do Amor. Luiz Gonzaga, em sua belíssima canção, refere-se, literal e metaforicamente, a essa dor que é perder a visão da luz:

            Tudo em volta é só beleza
            Sol de abril e a mata em flor
            Mas Assum preto, cego dos oio
            Não vendo a luz, ai, canta de dor
            […]
            Assum Preto, o meu cantar
            É tão triste como o teu
            Também roubaro o meu amor
            Que era a luz, ai, dos óios meus

É com a evocação desse melancólico Assum-preto, condenado a cantar na escuridão da eterna noite, que você encerra o seu poema:

            canta assum-preto cupido em sua terra prateada
            agradece a alegria vinda a tristeza inda e a saudade onda

Porém, sabemos que é próprio da ficção transcender a qualquer mal de amor. QUELOIDE está endereçado tanto aos nossos olhos como aos nossos ouvidos e nele não existe a separação entre forma e conteúdo. O que você, nele e por meio dele, nos diz não estava dado, isto é, não se trata de mero registro autobiográfico ou, pura e simplesmente, de relatos de um amor que se desfez. Trata-se de um dizer que foi se constituindo ao longo do próprio fazer e que, no entanto, ao se assemelhar, diferencia-se do que muitos já disseram e ainda hão de dizer sobre o amor. Não é por outro motivo que Fernando Pessoas, em AUTOPSICOGRAFIA, nos revela que:

           O poeta é um fingidor
           Finge tão completamente
           Que chega a fingir que é dor
           A dor que deveras sente.

          E os que lêem o que escreve,
          Na dor lida sentem bem,
          Não as duas que ele teve,
          Mas só a que eles não têm. 

          E assim nas calhas de roda
          Gira, a entreter a razão,
          Esse comboio de corda
          Que se chama coração.

Beijos da sua fada-madrinha, Gigi.

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